
Mãos vazias
- 17 de mar.
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Gritos.
Som abafado e apito estridente no ouvido, que me deixaram surda por algum tempo, segundos depois do estrondo de escombros que caíram sobre nós, tão perto que a cortina de fumaça tornava a visão branca.
Além das sombras que pareciam flashes de luz no véu de poeira, o apito em meus ouvidos aumentava, mas era possível ouvir o som dos passos de uma multidão de pessoas correndo.
Instintivamente, aperto minha mão direita e percebo que minha filha não está comigo.
Sensação de vazio.
Arrepio na espinha.
As mãos geladas, ainda mais agora.
Um choque percorre meu corpo, dando uma descarga de adrenalina para me mover mesmo naquele estado.
Não sei o que aconteceu ao redor, pois minha atenção foi direcionada para a busca da criança que deveria estar segurando minha mão.
Uma menina de 6 anos, cabelo curto e vestido com duas camadas de tecido na saia, formando um babado.
Não sei se foi um acidente, terremoto... Parecia queda de um prédio ou avião. Só sei que algo de grande magnitude aconteceu, mas não pude ver nem ouvir o que as pessoas falavam.
Corri para dentro do manto esbranquiçado, esbarrei em pessoas que corriam tão desesperadas quanto eu. Caí algumas vezes no chão e senti pisarem em minhas mãos, esbarrarem enquanto eu estava de joelhos tentando me levantar.
O desespero aumentava conforme eu andava e não conseguia enxergar o rosto das pessoas, apenas as silhuetas. Ao fundo alguns estrondos e tilintar de iluminação. No momento não prestei atenção, mas agora consigo entender que eram explosões de carros e fogo tomando conta da estrada. Estávamos numa pista, muito próximos a uma ponte que atravessava o rio.
Após passar por tantos obstáculos, cheguei à beira do rio.
Desci correndo a ladeira de terra esburacada, escorregadia. Pisei em coisas pontiagudas, só então percebi que estava descalça.
O sentimento em meu peito era que alguém (ou algo) tinha tirado a minha filha de minhas mãos. Não foi um acidente. Algo a atraiu para longe.
De repente… som de algo se debatendo na água, baixo, como se já estivesse sem força para se mover.
Ao fundo daquele cenário nebuloso, onde a escuridão da noite dominava o ambiente por completo, a iluminação refletida na água oscilando brutalmente conforme as explosões ocorriam no nível acima, pude ver duas mãos pequenas tentando agarrar algo - mas não havia nenhum objeto ali.
Corri em sua direção, tentei nadar, engoli água. Quando encostei em seu corpo inerte e gélido, tudo ficou preto e silencioso.
Notas:
Na madrugada do dia 12/03, uma quinta-feira chuvosa, acordei chorando aos prantos. Meu corpo tremia e eu fiquei por alguns minutos assim.
Conforme eu despertava e começava a entender que foi outro pesadelo, pude me acalmar aos poucos e as lágrimas cessaram.
Eu não tenho filhos, mas nesse sonho eu tinha certeza que a menina era minha.
A sensação de vazio no peito seguiu por mais algumas horas.



Incrível como os sonhos são mistériosos e mexem com a gente mas a cada momento a gente quer saber o desfecho e saber como acaba tudo
Eu fico realmente intrigado com como, a cada texto escrito, a profundidade e o realismo aumentam, como se eu estivesse presenciando parte daquela situação e do sentimento ali cultivado. O som de algo se debatendo na água, misturando-se aos barulhos caóticos das explosões que outrora passaram, ecoou de forma nítida na minha cabeça e, por consequência, o frio na espinha o acompanhou.