Prisão temporal
- há 9 horas
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As cores dessa lembrança são em tom levemente acinzentado, sem calor. Não me lembro de sentir frio na pele, mas o que eu via me transmitia essa sensação.
Eu estava andando dentro de uma estação de trem. Enquanto descia as escadas, percebia placas de identificação nas paredes que indicavam o caminho para a plataforma.
Haviam pessoas ali, mas eu não notava a presença corpórea, era como se fossem vultos, sombras, e nunca estavam na minha direção. Apenas as notava pela visão periférica, e quando tentava focar minha visão, era como se desaparecessem daquele ponto e surgissem em outro.
De certa forma, isso foi o que menos me incomodou. Minha atenção estava focada em entrar no próximo trem, que acabara de chegar. E assim o fiz.
O vagão era tradicional, havia bancos cinzas, grandes janelas fixas e pequenas basculantes entreabertas, informativos nas paredes. Nada que chamasse a atenção além do normal. E novamente, havia pessoas lá, mas ao mesmo tempo era como se eu estivesse sozinha.
Não me recordo de ouvir vozes, apenas o ruído do trem ligando o motor e em seguida o som dele em movimento. Pelas janelas era possível ver a parede do túnel enquanto o trem acelerava. Ele havia saído da estação. Ao parar e abrirem-se as portas, eu desci, afinal era meu objetivo, ou assim imaginei.
Eis que eu me encontrava na mesma estação inicial. Os mesmos sinais, placas, cores acinzentadas, sombras de pessoas que não eram possíveis se ver diretamente. O trem manteve-se com as portas abertas até que decidi entrar novamente.
Estava confusa. Eu devia ter me enganado e ainda não havia entrado no trem, havia apenas pensado em fazer isso. Ouvi um leve apito, as portas se fecharam e o trem se moveu.
Nesse momento que eu me dei conta que, mesmo se tentasse, não conseguia ver as pessoas que estavam lá. Mas elas estavam.
O trem parou, abriu as portas.
Senti meu corpo gelado e minha respiração ficou ofegante instantaneamente quando notei que estava na mesma estação, novamente. Tudo exatamente igual.
Algo estava completamente errado, eu não havia me enganado antes, eu estava presa num looping. Corri pelas escadas da estação para tentar sair do lugar. Meu desespero só aumentava conforme subia correndo os degraus das escadas, até perceber que me encontrava chegando na plataforma do trem novamente.
Não havia mais saída. Eu estava presa na estação.
Entrei no trem novamente, tentei abrir a janela, mas não consegui. Imediatamente quando entrava no trem, ele fechava a porta e se movimentava apenas para retornar ao mesmo ponto de partida: minha prisão temporal.
A tentativa de quebrar o ciclo se repetia uma após a outra, e em cada uma, eu tentava algo diferente. Insisti algumas vezes em tentar encontrar saída na plataforma, corri pelas escadas, viajei no trem diversas vezes, e cada uma delas meu desespero aumentava.
A ansiedade era sufocante. Senti que estava perdida em minha própria mente quando de repente acordei ofegante, feliz por ter conseguido sair de alguma forma daquele ciclo interminável.
Notas:
Esse sonho é uma parte nova de um pesadelo que eu já tive repetidas vezes, onde estou presa numa estação de trem gigantesca, com diversas escadas, portas, plataformas, e nunca encontrei a saída para meu destino final.
No sonho “original”, eu nunca cheguei a encontrar o trem. Eu sempre corria até a plataforma e ele sempre estava saindo, ou me encontrava na plataforma errada, tendo que vagar pelos caminhos intermináveis da estação labiríntica.
Nesse, eu encontrei o trem, mas não o caminho, nem a saída. Me questiono se algum dia saberei qual será o destino final desse sonho.



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